Brasil deve perder liderança mundial da produção de açúcar para a Índia

Uma concorrente do outro lado do globo ameaça a liderança mundial do Brasil na produção de açúcar, um posto que o país ocupa há mais de 20 anos. Condições climáticas favoráveis e uma política generosa de subsídios do governo devem fazer a Índia assumir o primeiro lugar do mercado.

A mexida no tabuleiro acontece num contexto de preços historicamente baixos, devido ao maior excedente da história nos grandes produtores. Com os estoques de sobra, desde o ano passado, as quedas dos valores da tonelada se acumulam, um cenário que deve permanecer por pelo menos mais nove meses, na opinião de analistas de commodities.

“Infelizmente, isso não é bom para ninguém. O preço de 12 ou 13 centavos de dólar por libra-peso de açúcar bruto mal cobre os custos de produção no Brasil, por exemplo”, explica o economista Philippe Chalmin, professor da Universidade Paris-Dauphine. “A Índia praticamente precisa subvencionar as exportações, e a conjuntura se tornou muito difícil para os produtores europeus, que vivem a primeira safra sem ajuda da política agrícola europeia, desmantelada no ano passado.”

François Thaury, especialista em mercado internacional de açúcar da consultoria francesa Agritel, reconhece a dificuldade em fazer previsões em um setor volátil quanto o de açúcar, mas avalia que o excedente mundial da safra em curso, com fim em setembro, deve ser de 10 a 12 milhões de toneladas, devido à surpresa indiana. A expectativa é de que, em 2018-2019, a Índia atinja ao menos 32 milhões de toneladas, enquanto a produção brasileira não deve ultrapassar 31 milhões de toneladas.

“Não podemos afirmar que, a longo prazo, a Índia vai substituir o Brasil no posto de maior produtora mundial, mas de maneira pontual é muito possível. Eu diria que o primeiro lugar vai passar a ser arduamente disputado. Porém, não significa que a Índia passará a ser a líder mundial no setor, porque a produção de açúcar indiana depende muito dos subsídios do governo, que sustenta artificialmente o preço da cana acima do mercado.

Migração para o etanol

Thaury aponta que, diante dessas previsões para o concorrente, o comportamento do Brasil será a única variável de ajuste dos preços. Com os valores pouco atraentes do açúcar, os produtores de cana brasileiros têm se direcionado para o etanol, um mercado que se anuncia promissor devido ao programa RenovaBio de incentivo ao biocombustível, em expansão no país, e em um contexto de petróleo caro. Da mesma forma, o etanol começa a seduzir a Índia, que anunciou recentemente US$ 670 milhões de investimentos no setor, ainda incipiente. (Matéria continua)

(Fonte: RFI, 20/06/2018, http://br.rfi.fr/economia/20180620-brasil-deve-perder-lideranca-mundial-da-producao-de-acucar-para-india)

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